sexta-feira, 18 de abril de 2014


 




SURDOCEGUEIRA E DEFICIÊNCIAS MÚLTIPLAS (DMU) – APRENDENDO A DIFERENCIAR

            É comum que as pessoas confundam indivíduos que tem perda concomitante da visão e da audição com indivíduos de múltiplas deficiências. Há, é verdade, algumas semelhanças mas os dois casos apresentam um perfil central diferenciado e ao professor é fundamental saber como separar cada situação e como intervir em cada quadro.

O primeiro passo é saber no que se diferenciam a surdocegueira e a DMU.
O indivíduo que é surdocego possui uma perda total ou parcial da visão e da audição, de modo conjunto e essa perda se manifesta de tal forma que o seu desenvolvimento e interação acabam sendo comprometidos. Pode ser uma condição adquirida desde o nascimento, por causas relacionadas ao indivíduo ou exteriores a ele, mas também pode ser uma situação adquirida por fatores variados associados ao ambiente e as condições de vida experimentadas. Mas, quando alguém atinge este quadro, o tato, na grande maioria das vezes passa a ser o seu meio principal de interação com o mundo e sua comunicação passa a ser realizada com o uso de linguagens acessórias, que permitam tanto a ele receber quanto repassar informações. Muitas vezes, o potencial de aprender, a capacidade de aprendizado está ali de um modo intacto, requerendo apenas a mediação para que possa ser desenvolvido.
Já as Deficiências Múltiplas geralmente ocorrem entre alunos que possuem uma situação mais grave de acometimentos e que apresenta efeitos que podem afetar muito severamente o progresso acadêmico e social do indivíduo. Em geral, são atingidas as capacidades de comunicação, interação social e também há comprometimentos físicos, de tal modo que a DMu atinge a cognição, o estado físico e o mental da pessoa, de modo concomitante. O indivíduo pode aprender, é claro, mas requer que as adaptações e que o acompanhamento seja exatamente modelado para que possa obter o máximo em suas limitações.
Quais são as necessidades básicas desses alunos?
Ambos os casos têm uma necessidade, em maior ou menor grau, de mediação com o meio e o professor, bem como os atores educacionais competentes, devem agir na promoção de um melhor engajamento e equiparação educacional. A comunicação, no caso do surdocego, é um dos eixos de partida – é preciso que ele possa entender o mundo e se fazer entender e a escola é uma via dessa finalidade. Os estímulos e um programa didático e metodológico apto a oferecer as adaptações e ajustes necessários são capazes de permitir que um aluno nessa condição possa ler, escrever e ser autônomo, desde que esse processo seja visto como um desafio conjunto no qual o professor não está isolado nesse sentido e a sala de recursos e demais atores educacionais somem para oferecer as adaptações e condições necessárias. No caso dos indivíduos com DMu, a tecnologia assistiva e também as estratégias de mediação do aprendizado, especialmente estimulando a sua zona de desenvolvimento proximal de modo criterioso e planejado, são algumas das alternativas disponíveis. Nos dois casos, o professor deverá descobrir os caminhos para adaptar, os caminhos de fazer melhor uma mediação completa entre esses indivíduos, transpondo o que para eles é complexo e oferecendo caminhos para que possam, por si, se desenvolver. O surdocego, com sua necessidade de interagir e de ser compreendido, o indivíduo com DMu com sua necessidade de percepção dos potenciais e inserção mediada no meio.
Quais as estratégias utilizadas para o estabelecimento da comunicaçãoAmbos precisam, fundamentalmente, ter uma ação focada na comunicação e isso apenas é possível com um trabalho que interprete o indivíduo de modo pessoalizado, que desenvolva metodologia e didática eficientes o suficiente para promover a integração desses alunos. Não se trata unicamente de mediar em sala de aula e em atividades formais o conhecimento, mas também de oferecer estratégias que sirvam de ponte para essa finalidade, para que possam se comunicar, mas que tenham outras opções de desenvolvimento – como por exemplos jogos e brincadeiras. A aplicação desses recursos, por sua vez, deve ser feita sempre pensando nas necessidades de cada indivíduo e no quanto aquela interação irá colaborar para que possa canalizar a sua expressão, integrar-se com o meio, ser mais aceito e integrado e tornar-se suficiente em suas expressões e inter-relações com o ambiente e com os demais. Assim, não existe uma receita de estratégias, mas essas diretrizes apoiam uma seleção metodológica eficiente em promover a comunicação entre essas duas parcelas educacionais, cada uma a sua forma e cada qual conforme suas necessidades.

Referências
BLAHA, Robbie. Calendários - Para Alunos com múltiplas deficiências Incluindo surdocegueira. Escola Texas para Cegos e com Baixa Visão – 2003. Tradução em 2005 – Projeto Horizonte. Tradução: Márcia Maurilio Souza. Revisão: Shirley Rodrigues Maia e Lília Giacomini.
BOSCO, Ismênia C. M. G.; MESQUITA, Sandra R. S. H.; MAIA, Shirley R. Coletânea UFC-MEC/2010: A Educação Especial na Perspectiva da Inclusão Escolar - Fascículo 05: Surdocegueira e Deficiência Múltipla (2010). Capítulo 4 - A escola comum e o aluno com surdocegueira. Capítulo 5 - Deslocamento em trajetos. Capítulo 6 - Pessoa com surdocegueira.
BRENNAN, Vickie, PECK, Flo, LOLLI, Dennis. Sugestões para modificação do Ambiente em Casa e na Escola - Um manual para pais e professores de crianças com surdocegueira. Tradução José Carlos Morais (2004). Revisão e Adaptação para o português do Brasil: Shirley Rodrigues Maia  e Lília Giacomini.
OLSON, M. R, GELHAUS M.M. Utilizando Cor e Contraste para modificar o ambiente educacional de alunos com deficiência visual e múltipla deficiência. Using color and contrast to modify the educational environment for the students with impairment and multiple disabilities (M.M. Gellhaus; M.R. Olson). Tradução: Laura Lebre Monteiro Anccilloto (2007). Revisão: Lilia Giacomini (2009).

ROWLAND Charity e SCHWEIGERT Philip - Soluções Tangíveis para Indivíduos Com Deficiência Múltipla e ou com Surdocegueira. Apostila In mimeo. Tradução Acess. Revisão: Shirley R. Maia - 2013.

Nenhum comentário:

Postar um comentário