
SURDOCEGUEIRA E DEFICIÊNCIAS MÚLTIPLAS (DMU) – APRENDENDO A DIFERENCIAR
É comum que as pessoas confundam indivíduos que tem perda
concomitante da visão e da audição com indivíduos de múltiplas deficiências.
Há, é verdade, algumas semelhanças mas os dois casos apresentam um perfil
central diferenciado e ao professor é fundamental saber como separar cada
situação e como intervir em cada quadro.
O primeiro passo é saber no que se diferenciam a surdocegueira e a
DMU.
O indivíduo que é surdocego
possui uma perda total ou parcial da visão e da audição, de modo conjunto e
essa perda se manifesta de tal forma que o seu desenvolvimento e interação
acabam sendo comprometidos. Pode ser uma condição adquirida desde o nascimento,
por causas relacionadas ao indivíduo ou exteriores a ele, mas também pode ser
uma situação adquirida por fatores variados associados ao ambiente e as
condições de vida experimentadas. Mas, quando alguém atinge este quadro, o
tato, na grande maioria das vezes passa a ser o seu meio principal de interação
com o mundo e sua comunicação passa a ser realizada com o uso de linguagens
acessórias, que permitam tanto a ele receber quanto repassar informações.
Muitas vezes, o potencial de aprender, a capacidade de aprendizado está ali de
um modo intacto, requerendo apenas a mediação para que possa ser desenvolvido.
Já as Deficiências Múltiplas
geralmente ocorrem entre alunos que possuem uma situação mais grave de
acometimentos e que apresenta efeitos que podem afetar muito severamente o
progresso acadêmico e social do indivíduo. Em geral, são atingidas as
capacidades de comunicação, interação social e também há comprometimentos
físicos, de tal modo que a DMu atinge a cognição, o estado físico e o mental da
pessoa, de modo concomitante. O indivíduo pode aprender, é claro, mas requer
que as adaptações e que o acompanhamento seja exatamente modelado para que
possa obter o máximo em suas limitações.
Ambos os casos têm uma
necessidade, em maior ou menor grau, de mediação com o meio e o professor, bem
como os atores educacionais competentes, devem agir na promoção de um melhor
engajamento e equiparação educacional. A comunicação, no caso do surdocego, é
um dos eixos de partida – é preciso que ele possa entender o mundo e se fazer
entender e a escola é uma via dessa finalidade. Os estímulos e um programa didático
e metodológico apto a oferecer as adaptações e ajustes necessários são capazes
de permitir que um aluno nessa condição possa ler, escrever e ser autônomo,
desde que esse processo seja visto como um desafio conjunto no qual o professor
não está isolado nesse sentido e a sala de recursos e demais atores
educacionais somem para oferecer as adaptações e condições necessárias. No caso
dos indivíduos com DMu, a tecnologia assistiva e também as estratégias de
mediação do aprendizado, especialmente estimulando a sua zona de
desenvolvimento proximal de modo criterioso e planejado, são algumas das alternativas
disponíveis. Nos dois casos, o professor deverá descobrir os caminhos para
adaptar, os caminhos de fazer melhor uma mediação completa entre esses
indivíduos, transpondo o que para eles é complexo e oferecendo caminhos para
que possam, por si, se desenvolver. O surdocego, com sua necessidade de
interagir e de ser compreendido, o indivíduo com DMu com sua necessidade de
percepção dos potenciais e inserção mediada no meio.
Quais
as estratégias utilizadas para o estabelecimento da comunicação
Ambos precisam,
fundamentalmente, ter uma ação focada na comunicação e isso apenas é possível
com um trabalho que interprete o indivíduo de modo pessoalizado, que desenvolva
metodologia e didática eficientes o suficiente para promover a integração
desses alunos. Não se trata unicamente de mediar em sala de aula e em
atividades formais o conhecimento, mas também de oferecer estratégias que
sirvam de ponte para essa finalidade, para que possam se comunicar, mas que
tenham outras opções de desenvolvimento – como por exemplos jogos e
brincadeiras. A aplicação desses recursos, por sua vez, deve ser feita sempre
pensando nas necessidades de cada indivíduo e no quanto aquela interação irá
colaborar para que possa canalizar a sua expressão, integrar-se com o meio, ser
mais aceito e integrado e tornar-se suficiente em suas expressões e
inter-relações com o ambiente e com os demais. Assim, não existe uma receita de
estratégias, mas essas diretrizes apoiam uma seleção metodológica eficiente em
promover a comunicação entre essas duas parcelas educacionais, cada uma a sua
forma e cada qual conforme suas necessidades.
Referências
BLAHA, Robbie. Calendários - Para Alunos com múltiplas
deficiências Incluindo surdocegueira. Escola Texas para Cegos e com Baixa
Visão – 2003. Tradução em 2005 – Projeto Horizonte. Tradução: Márcia Maurilio
Souza. Revisão: Shirley Rodrigues Maia e Lília Giacomini.
BOSCO, Ismênia C. M.
G.; MESQUITA, Sandra R. S. H.; MAIA, Shirley R. Coletânea UFC-MEC/2010: A
Educação Especial na Perspectiva da Inclusão Escolar - Fascículo 05: Surdocegueira e Deficiência Múltipla (2010). Capítulo
4 - A escola comum e o aluno com surdocegueira. Capítulo 5 - Deslocamento em
trajetos. Capítulo 6 - Pessoa com surdocegueira.
BRENNAN, Vickie,
PECK, Flo, LOLLI, Dennis. Sugestões para
modificação do Ambiente em Casa e na Escola - Um manual para pais e professores
de crianças com surdocegueira. Tradução José Carlos Morais (2004). Revisão
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OLSON, M. R, GELHAUS M.M. Utilizando Cor e Contraste para modificar o
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contrast to modify the educational environment for the students with impairment
and multiple disabilities (M.M. Gellhaus; M.R.
Olson). Tradução:
Laura Lebre Monteiro Anccilloto (2007). Revisão: Lilia Giacomini (2009).
ROWLAND Charity e SCHWEIGERT Philip - Soluções
Tangíveis para Indivíduos Com Deficiência Múltipla e ou com Surdocegueira. Apostila
In mimeo. Tradução Acess. Revisão:
Shirley R. Maia - 2013.

